Da identidade à comu[m]idade

Publicado em Categorizado como Druidaria

No princípio era o silêncio. E de súbito o silêncio se fez grito primordial, urgência. Desejo ardente. De um encantamento tamanho que da explosão se fizeram estrelas, planetas, galáxias inteiras. E também continentes e oceanos, vales e montanhas, árvores que falam baixinho quando paramos para as escutar. Vieram ainda animais de escamas, pêlo e pluma. E nós humanos, pelo meio.

Dizem que ainda hoje os deuses governam os dias e as noites, o amor e a morte. Mas se foi do silêncio que todas as coisas emergiram, foi pela poesia que ganharam o seu primeiro fôlego. Foi pela poesia que viemos a ser muitos. Deuses, espíritos, fantasmas, memórias, sombras, pedras, plantas, animais, novos e velhos. Todos, de certa forma, viventes. Assim se concedeu a cada ser uma melodia única e invicta, e uma voz com que cantar. Assim se colocou em andamento a grande Canção do Mundo. Ainda hoje dançamos ao seu ritmo; uns a contra-gosto e contrapasso, outros tecendo a mesma dança para que toda a gente possa entrar na roda.

Cosmologias como esta ensinam-nos qual a ordem do mundo, segundo o filtro de determinadas culturas, línguas e linguagens. Fazem-no puxando a cadeira para ocuparmos o nosso próprio lugar nessa ordem cósmica. Pode ser que esta dinâmica resvale para uma forma de determinismo. É um dos extremos possíveis quando se trabalha com uma ferramenta que tem tanto de estética como de ética. Porém a druidaria que pratico alerta: as palavras são coisas. A estética é uma ética. A história que contamos sobre a formação dos Mundos é a contínua estória do crescimento do nosso mundo interior e de como ele interage com os mundos à nossa volta. Os deuses a quem atribuímos a ordem das coisas reflectem a ordem que lhes daríamos se estivéssemos nós ao comando.

É ao assumirmo-nos como matéria comum que emerge o Fogo que um dia nos há-de gerar para uma nova existência.

A druidaria que pratico recorda, como faziam os celtas, que estamos em total paridade com todos os seres, nascidos em graça original, mas também com um dever intrínseco. Foi com uma postura desassombrada, “tu cá, tu lá”, que os primeiros humanos a desembarcar na costa irlandesa terão chegado ao empate com os deuses do lugar na guerra pelo domínio da ilha. Dizem os mitos. E assim se chegou à mais acertada das partilhas de bens: aos humanos, uma morada no mundo visível; aos espíritos do lugar, um refúgio nos vales e rios da Irlanda. Ambas as histórias decorrem em simultâneo, sobrepostas como numa narrativa bem tecida.

Com a Natureza por fio condutor.

Herdámos do desejo primordial a capacidade de formar novos mundos em cada gesto, em todos os discursos. Somos fruto da poesia, e por ela havemos de ser poetas até ao fim das palavras. Eis o sentido de toda a vocação bárdica.

Magos e jardineiros

Se a Canção do Mundo nos coloca no mesmo patamar que todos os demais seres, capazes de construir ou danificar e viver as consequências nos seus respectivos mundos, quais as fronteiras dessa tal de “Natureza”?

Um dos alicerces da druidaria, e de resto, suponho, das demais tradições telúricas, assenta numa relação cada vez mais justa com a Terra que nos serve de casa. Mas penso do mesmo modo que esta prática também nos convida a fazermo-nos casa, tanto para quem nos rodeia como para nós mesmos.

Ou seja, uma relação justa depende dos valores fundamentais da hospitalidade e da reciprocidade. Damos porque recebemos constantemente, de diversas formas, de todos os seres. Aprendemos a receber o que nos é devido para poder dar ainda mais.

Este cuidado essencial do mago que é também jardineiro não deixa de ser acima de tudo a inclinação básica de todos os seres. Existimos harmonicamente ao ritmo da Oran Mór — que tem tanto de morte como de vida, diga-se — desde que não o desaprendamos. Há tantos factores que nos conduzem a esse esquecimento: a integração numa sociedade desencantada e des-encantada; todas as estruturas económicas e produtivas que vêem a Terra e as pessoas, humanas e não-humanas, como meras despensas de recursos inesgotáveis; as discriminações concretas e sistemáticas que atentam contra o nosso sentimento de segurança e de valor pessoal; as doutrinas que nos convencem de que nascemos na etnia eleita, no lado eleito da fronteira, na versão eleita da História, conforme convenha aos senhores de ocasião, mas que deixam a espiritualidade retida na alfândega; enfim, as próprias dúvidas quanto ao sentido da Grande Canção.

homo sum humani nihil a me alienum puto

Sou humano, e nada do que é humano me é estranho.

Terêncio

E se confiássemos? E se nos fizesse mesmo sentido abraçar o arquétipo do mago e do jardineiro que cuidam da alma como do mundo em redor? Passaríamos a compreender as lutas de quem cuja voz ficou afogada pelo ruído de alguns intervenientes na Canção do Mundo. Pelo nosso ruído histórico. Teríamos mais urgência na preservação dos nossos solos, das nossas águas, do nosso ar, dos pensamentos e emoções, das vontades e dos sonhos que poluímos por ocasião do funeral das nossas infâncias. Teríamos mais atenção ao nosso corpo, esse eterno negligenciado a quem devemos tudo, desde os pequenos prazeres às maiores vaidades. Cumpriríamos enfim a solidariedade, porque a mesma Natureza onde se ouvem as vozes dos mitos nos fala pelos corpos diversos, ricos e invioláveis de todas as criaturas.

A Terra, essa, continuará no seu próprio percurso, capaz de regularizar todos os desequilíbrios e depurar-se de quaisquer parasitas, tal como sempre fez. A nós, aqui e agora, na intersecção dos nossos privilégios e traumas, com mais ou menos visitas idílicas a círculos de pedra e densas florestas, cabe-nos a escolha de entrar de facto no compasso, na dança de todos os dias, ou ficar à margem da própria vida.

Da caça à dança

Passamos a vida à caça da Vida profunda, ou a ser por ela caçados, tal como Taliesin terá ganho consciência do Awen depois de ser longamente perseguido por Cerridwen. Parece inevitável que o derradeiro embate se dê mais tarde ou mais cedo, não parece? É válido perguntar se devemos tentar precipitar esse encontro, se se trata de facto mais de precipitação do que de convite. Pessoalmente, prefiro pensar na prática druídica como uma forma de endereçar esse convite ao Awen, a todos os seres, ao mundo inteiro, para que, (im)portados vezes sem conta, me passem a importar deveras. Para que eu transforme a caça numa dança em que ambas as partes se seduzem.

Para que eu entenda a Grande Canção pelo diapasão da empatia.

Muitas são as formas de entrar nessa dança. Há quem se concentre em treinar a atenção plena, ou em estreitar os laços com os seres dos diversos Mundos, seja como for que se entenda a sua existência. Certamente não iremos longe sem concretizar o que pregamos em hábitos de vida mais éticos e ecológicos, exigindo também dos poderes a sua quota — maioritária — de responsabilidade. Convém ainda saber mais acerca da história de quem fomos, muito para além do filtro dos currículos oficiais; é geralmente pelo olhar da mitologia que tiramos a mordaça de quem não vem nos livros e desafiamos os limites da consciência e do julgamento. Para que enfim questionemos os nossos silêncios coniventes. Para que cresçamos no amor, sabendo que não é pelo mérito que produzimos a pedra filosofal, mas que é ao nos assumirmos como matéria comum que emerge o Fogo que um dia nos há-de gerar para uma nova existência.

Afinal, se a Vida profunda nos persegue, não teremos como fugir dela para sempre.

Artigo originalmente publicado no número 4 da Revista Ophiusa da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, em Novembro de 2017.