A procura por informações credíveis acerca das espiritualidades telúricas e alternativas nos meios de comunicação social convencionais é, por norma, uma experiência consabidamente frustrante para os praticantes dessas tradições, quer pela superficialidade no tratamento deste tipo de temáticas, quer, não raro, pelo tom jocoso com que elas são apresentadas ao público, tom esse geralmente motivado por fenómenos paralelos na cultura pop que despertam ora medo ora incompreensão em quem parte de uma perspectiva — como que a filtrar o mundo com vidros baços — influenciada pela crença e pelos costumes dominantes.

É por essas e por tantas outras razões que saudamos a iniciativa da jornalista Rita Saldanha e do historiador João Rodil em proporem à televisão pública portuguesa um espaço em que se explore várias tradições e práticas menos conhecidas do grande público, com um genuíno interesse em divulgá-las em termos acessíveis, sem sensacionalismos e com toda a substância.

Estreada ao longo do passado Outono no segundo canal da RTP (a estação que tem por mote ser “culta e adulta”), a série Portugal Culto e Oculto deu a conhecer em dez episódios movimentos e tradições tão diversas como a Maçonaria (inclusive no feminino) ou a Alquimia, o Rosacrucianismo, o Franciscanismo ou o New Age. No terceiro episódio, deu também destaque à Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, com a participação de vários membros da OBOD em Portugal e imagens gravadas na Casa do Fauno e no Bosque Sagrado da Ordem em Sintra.

O programa começou por explorar as raízes ancestrais das civilizações celtas, e do próprio Druidismo, no espaço português, para então passar a estabelecer diversas ligações entre o conhecimento espiritual transmitido pelo Druidismo e outros saberes, como a astrologia, o herbalismo ou a alquimia, enquanto ramos diversos que partem de um mesmo tronco comum da Tradição Primordial. Os membros da Ordem entrevistados para o programa mantiveram, aliás, um foco constante nessa universalidade do saber druídico, pois que esse saber é na verdade uma gnose: um (re)conhecimento íntimo, uma mudança de paradigma, uma emergência da linguagem da alma.

Um saber etimologicamente associado ao carvalho, que nos situa numa justa relação com todas as demais formas de vida e no lugar que ocupamos na grande narrativa do espaço e do tempo. O entendimento de que o saber e a lei deviam ter como função a manutenção da estabilidade cósmica era, aparentemente, transversal às várias civilizações celtas. Talvez por isso estas despertaram a atenção dos fundadores do Revivalismo Druídico no século XVIII; talvez por isso continuem a encantar-nos tanto hoje em dia, num mundo onde se toma o ruído pela mensagem e o silêncio pelo vazio.

O programa explorou também a natureza e o sentido dos três graus de iniciação propostos pela OBOD, na veia da tradição revivalista, entendidos como modalidades de cura (interior e exterior) e de serviço aos outros — dada, aliás, a sua inspiração em funções concretas nas antigas sociedades celtas. Desde o Bardo que preserve e desenvolve a memória colectiva do seu grupo e é capaz de moldar o mundo através do dom da palavra e do canto, ao Ovate que se coloca no “eixo do mundo” e reúne informações e remédios oriundos de todos os reinos da existência, fora do tempo por vezes, chegando enfim ao grau de Druida, o grau da filosofia natural, do domínio de si, da doação à comunidade.

O Druidismo é uma espiritualidade sensual, que celebra o corpo como grão-iniciador — pois é pelos sentidos que a gnose se torna possível. Assim, o programa Portugal Culto e Oculto não deixou passar a oportunidade de apresentar um exemplo de celebração dos ritmos da natureza e do Homem: o Samhain, quando o limiar entre este e o Outro Mundo se torna mais ténue e tudo se torna possível. E fez uma breve contextualização histórica do hidromel, essa substância quase sacramental, dir-se-ia, que precede todas as outras bebidas fermentadas.

A passagem das estações, os ciclos que sempre se renovam, descrevem, num plano, o poderoso símbolo do círculo, e noutro, uma interminável espiral. Não se pode entender o Druidismo sem uma perspectiva não-dual, e o documentário deixou isso bem patente ao explorar a simbologia do número 3 e a sua importância para o mundo celta. E daí, derivou também uma importante ressalva: apesar do óbvio e admirável invólucro cultural celta que forma a prática druídica, ela não está vedada a praticantes seja de qual for a sua origem geográfica, étnica ou religiosa. A “verdade contra o mundo” de que falavam os celtas não pode ser espartilhada na habitual esgrima retórica entre as duas faces da mesma medalha que formata a cultura dominante, mas sim uma visão holística, radical (porque próxima das raízes), fora do mundo dos opostos.

O programa terminou com uma visita ao espaço do Bosque Sagrado da OBOD em Sintra, onde se descodificou muitos dos detalhes que tornam aquele nemeton num verdadeiro mestre silencioso, segundo a linguagem do Ogham e da própria ritualística desenvolvida na Ordem.

Agradecemos aos autores de Portugal Culto e Oculto por terem conduzido a produção do programa com tamanha atitude de contemplação (como quem pisa solo sagrado!), o que resultou num contributo raro e precioso acerca do Druidismo e de várias outras tradições que animam a prática espiritual em solo português. Que venha a segunda temporada!

A série Portugal Culto e Oculto está disponível na íntegra na Internet, na plataforma RTP Play.

Artigo originalmente publicado no número 9 da Revista Ophiusa da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, em Maio de 2019.