“A letra mata”. Ontem como hoje, sobretudo quando o Awen, a eterna novidade do presente, nos bate à porta e nos recusamos a convidá-la a fazer parte das nossas vidas. É por isso que o renascimento druídico, desde os tempos da Ancient Order of Druids, se recusou a criar mais um -ismo a juntar às muitas doutrinas reveladas do mundo. Ao invés, preferiu desenvolver uma prática que se assemelha mais a um ofício que a uma cartilha, uma verdadeira arte do espírito em vez de um dogma fechado. Chamaram-lhe Druidry em vez de Druidism, ou Druidaria, e não Druidismo, numa tradução directa.

O Druidismo, ou a Druidaria, não consiste na adesão a um credo, mas sim numa prática transformativa de restabelecimento de laços. Uma experiência de abertura gradual do espírito às várias existências, com quem estamos todos relacionados: os que já foram, os que são e os que serão sempre.

Este processo tem como dom principal a magia. A magia entendida como capacidade de manifestar a Ideia e de modificar a realidade, não só no plano interior, mas também no nosso mundo aparente. Afinal, a Druidaria ensina-nos a ver a criatividade como uma fonte, um veículo e uma consequência naturais da espiritualidade. A própria descoberta dos deuses foi e é sempre, também, uma contínua invenção e releitura — como nos acontece diante de qualquer quadro ou poema.

Não há outra mestra além da Natureza nas suas múltiplas manifestações, incluindo a nossa. E saber que qualquer espaço, que o nosso próprio espaço, será capaz de nos ensinar tudo o que de mais precisarmos, é querer saber mais sobre ele. É ouvir-lhe os segredos, confidenciar-lhe as emoções mais preciosas. Entrar em estado de emergência. É fazer do Druidismo que se aprende nos livros uma Druidaria que defende activamente a causa da casa comum.

Um Druida e uma Druidaria relevantes para os nossos dias saberão buscar o encanto por essa Natureza manifesta em todos os que nos rodeiam, e deixar-se apaixonar por ela ao ponto de sentir as suas dores como se fossem suas. Colocar-se na pele do outro. Mudar de forma. E cumprir assim o derradeiro acto de magia, a compaixão.

Sejamos nós bardos, ovates ou druidas, a Druidaria permite-nos (re)encontrar o nosso lugar na Grande Canção do mundo através de uma prática tríplice.

Uma prática de reencontro connosco mesmos. Segundo a visão das antigas sociedades celtas, o encontro do sujeito consigo mesmo não acontecia com a identificação com um deus transcendental nem com um total desligamento de todos os compromissos com o mundo à sua volta. Por outras palavras, não passava por uma exteriorização da busca, mas sim por uma relação justa entre o sujeito e todos os outros seres. A Druidaria permite-nos saber que fazemos todos parte de uma longa teia de relações e descobrir nesse parentesco comum com todas as coisas a nossa verdadeira identidade, dia a dia, a cada fôlego partilhado.

Uma prática de reconciliação entre opostos. Não é à toa que o número três tem o significado e a simbologia que tem no imaginário celta. Estabelecida a unidade e o seu oposto, o número três traz a possibilidade da união, da criação de algo novo a partir dessa oposição entre realidades tantas vezes mais complementares que dissonantes. Numa época em que a única escolha apresentada pelas vozes da maioria é entre o medo e a fúria, cabe ao pensamento druídico propor a terceira opção, de união mais do que de divisão, de aceitação em vez de rejeição, de mudança em vez de indiferença. De dentro para fora.

Uma prática de contínua re-descoberta. Uma Druidaria vivida de forma profunda é uma prática que se redefine e re-compromete todos os dias, atenta às circunstâncias, aos ciclos da vida e do próprio corpo e às mensagens que todas as coisas, dotadas de voz pelo mesmo Silêncio que nos anima, têm para nos transmitir. É um caminho pleno de surpresas, em que damos por nós muitas vezes a abrir mão de todas as verdades que julgávamos ser eternas para recomeçar do zero. Para podermos voltar à escuridão inicial de onde tudo renasce, e acolher tudo o que este caminho tem para dar com a máxima disponibilidade e abertura de coração. Pois como diria Maurice Maeterlinck:

Importa vivermos como se estivéssemos sempre na véspera de uma grande revelação, e prepararmo-nos para a acolher o mais íntima, completa e ardentemente possível.

Artigo originalmente publicado no número 1 da Revista Ophiusa da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, em Fevereiro de 2017.