O pouco que sabemos acerca de como viviam, e sobretudo como pensavam, as comunidades celtas da Antiguidade tem-nos chegado através do estudo da arqueologia, da sua mitologia e literatura — tantas vezes filtradas pelo olhar cristão —, mas também e cada vez mais por uma análise linguística que nos permite encontrar paralelos surpreendentes na generalidade das culturas situadas entre a Europa e o subcontinente indiano, o que parece fazer jus ao elevado estatuto que essas mesmas culturas atribuíam à palavra e ao modo como serve de canal — que é como quem diz, de agente criador — entre este e outros Mundos.

Alguns dos conceitos das antigas línguas celtas que sobreviveram até aos dicionários modernos são verdadeiras cápsulas do tempo que, com um punhado de letras apenas, nos abrem as portas para o tempo e o espaço de onde emergiram. Nascidas num “império sem imperadores”, no dizer de Jean Markale, isto é, fora da dinâmica de violação e de assimilação gratuita do corpo da Terra e dos corpos individuais em que assenta a herança cultural que tanto idolatramos, diria que provocam curto-circuitos no nosso entendimento alienado; são, pois, veículos de iniciação.

Um desses casos é o de uma pequena mas multifacetada palavra irlandesa: Dán. Se consultarmos os contextos em que surge em textos antigos e ainda nos nossos dias, veremos que acumula, como num palimpsesto, uma série de significados interessantes. Dán é um dom, mas também uma arte, uma prática continuada. É a poesia, em todas as suas formas, mas também o destino de todos e de cada um. Ou seja, como em tudo no pensamento celta, é uma dádiva recíproca: a porção de Dán que nos é dada em cada existência é ao mesmo tempo uma vocação, um chamamento, o dever de retribuir com outra oferenda. A da própria vida.

As palavras são coisas. (Bernardo Pinto de Almeida)

O conceito irlandês de Dán encontra alguns paralelos noutras tradições, como por exemplo, e de forma notável, no Dabar hebraico, que significa tanto “palavra” como “coisa”, que aparece associado a declarações proféticas que neste canto do mundo diríamos ser bárdicas, e que os antigos tradutores helénicos equiparavam ao Logos em que os gregos pensavam residir a razão e a forma de todo o Universo.

De facto, não estranhava aos gregos ver nos versos poéticos o mesmo impulso criativo observável nos ciclos de nascimento e morte, nos grandes feitos onde se forjavam heróis ou no próprio desenvolvimento da virtude e do conhecimento, como se lê n’O Banquete, de Platão. Afinal, todas essas manifestações são modos de poiesis, e por darem forma ao tempo e ao espaço devem ter origem fora dessas mesmas limitações, mais além e mais intimamente, na própria Matriz do Ser.

Se entendermos os antigos e novos Deuses como se fossem nós numa trama, como pontos onde se entrelaçam os fios da grande teia da vida, as várias almas — dos lugares, dos povos, de cada um — que constituem a Anima Mundi, a Grande Canção ou a Árvore que está no eixo do Universo, será fácil compreender porque, segundo os Mitos, a família de entidades poderosas que retirou aos Fir Bolg a posse da Irlanda recebeu o nome de Tuatha Dé Danann: a Tribo dos Deuses Habilidosos, ou das Artes.

As Artes precedem assim aos próprios Deuses, que como qualquer criatura são colocados sob a sua lei, pois é bem melhor participar na Grande Canção do que por ela ser arrastado. Pois o Dán é tanto destino como ofício: é o talento para Ser.

Aos humanos que dominam essas mesmas Artes, os Mitos dão-lhes a honra de repartir equitativamente o Cosmos com as deidades. Um dia, vindos da Ibéria, chegam à Irlanda os Milesianos, liderados pelo druida Amergin, que no seu canto se identifica plenamente com cada um dos elementos da terra e com a própria Mente por detrás do Todo. Essa gnose torna-se a chave para a posse da ilha, a condição fundamental para a sua Soberania.

O Caldeirão da Poesia

O processo pelo qual alguém pode aceder à iniciação pelo Dán aparece descrito no século VII sob a forma mais apropriada possível: um poema composto por um filí irlandês, isto é, um membro de uma antiga classe de videntes, profetas e poetas que provavelmente desempenhavam as mesmas funções na Irlanda que os ovates e bardos noutras paragens. Trata-se, claro, do texto O Caldeirão da Poesia. O autor identifica-se com o próprio Amergin, e conta que na constituição de cada ser humano se modelaram três caldeirões, formados a partir do Mistério indizível: no abdómen, reside o Caldeirão da Incubação, do Aquecimento ou do Sustento, posicionado de forma normal; ao peito, está o Caldeirão do Movimento, que nasce deitado de lado; e na cabeça, o Caldeirão da Sabedoria, que no começo das nossas vidas está virado com a boca para baixo. Adequadamente, no primeiro caldeirão fervilha o Dán específico que a cada um foi atribuído, e cabe a quem busca a iniciação alinhar-se com ele, aproveitando o fogo dos vários prazeres e mágoas dos sentidos que fazem tombar o Caldeirão do Movimento numa direcção ou noutra, até inverter o Caldeirão da Sabedoria para o preencher com os dons da Poesia e de todas as Artes.

Não se entende a dança entre Caos e Ordem, Água e Fogo, que vem gerando os Mundos de ciclo em ciclo numa paixão inquieta, sem fazer a passagem para um pensamento triádico.

Como o deus Manannán mac Lir — a Alma gaélica do mar, da magia e do Outro Mundo — terá aconselhado ao rei Cormac Mac Áirt, só acede à sabedoria quem souber beber plenamente dos cinco ribeiros de salmões em Tir na nÓg. Só a gnose sem filtros fornecida pelos cinco sentidos, esses limiares sagrados, leva até an Fhírinne aghaidh an tSoail, a verdade do Mundo contra o mundo que nos foi vendido.

Se vivemos e morremos pelas histórias que nos são contadas, se são elas que nos integram nas nossas várias tribos e nos explicam quem pensamos que somos, resulta claro que a espiritualidade alinhada com o Dán é um esforço poético de reconstruir a nossa narrativa pessoal e colectiva, uma história que nos apresenta de novo à Árvore dos Mundos e não a um mundo feito armazém de “recursos” naturais e humanos mais ou menos esgotáveis.

Loucura, morte ou iniciação

O que há de selvagem na sabedoria druídica prende-se com a forma como inevitavelmente nos precipita para um confronto directo com a soberania dos vários Mundos, a soberania do lugar que nos faz o favor de acolher e a própria soberania com que conduzimos a nossa existência. O tipo de soberania que confere autoridade aos actos e palavras de Amergin, que permite aos humanos repartir o Cosmos-Irlanda em equidade com os Deuses, é por definição uma Soberania indómita. Ela escolhe a quem deseja mostrar a sua face.

Conta-nos a mitologia irlandesa que a Soberania do lugar, desposada com Lugh, O das Muitas Artes, tinha o mandato de nomear cada um dos reis que governariam a ilha até ao fim dos tempos; os mesmos reis cujo sucesso dependia integralmente de estarem ou não em união plena com a Terra e, portanto, com todos os planos de existência.

Esta relação com a Vida Invicta, feita hieros gamos em quem todos os esforços místicos convergem, exige que se abandone o pensamento dualista que, na nossa cultura, oferece como única opção um conjunto de falsos binómios entre diferentes formas de exploração dos seres. Desde a divisão do Cosmos em três Mundos aos Trí Naoimh, das tríades irlandesas medievais às de Iolo Morganwg, parece existir uma longa tradição que usa o número três como gatilho para um pensamento holístico. Mas não nos deixemos iludir: a terceira via aberta pelo Dán não alinha pelo credo da moderação: no momento em que a Morrígan faz ecoar os seus gritos ou Cerridwen parte à caça de Gwion, optar pela isenção ou por assistir com indiferença à Grande Canção do Mundo atenta directamente contra a iniciação que Elas pretendem comunicar.

Não se entende a dança entre Caos e Ordem, Água e Fogo, que vem gerando os Mundos de ciclo em ciclo numa paixão inquieta, sem fazer a passagem para um pensamento triádico. Muito menos quando todas as lentes com que a cultura maioritária nos enquadra o olhar não estão calibradas para entender o Mítico. Diante da diversidade de todas as existências suscitadas pelo Awen, demasiados grimórios e mestres estereotipam o Natural à imagem e semelhança de ideologias tão recentes quanto a Revolução Industrial, e de normas morais que ainda vendem a procriação como a única ou até a melhor narrativa iniciatória — ontem, hoje e sempre, é o Homem, um grupo muito específico de homens, a colocar-se a si mesmo no centro do Mundo. O caminho do Dán coloca-nos face a face com a soberania indelével e inviolável de cada ser e desmantela aquela lógica decalcada do Contrato Social de Locke que reduz a Terra — bem como determinados grupos sociais, conforme a necessidade da moral dominante — a um recurso a explorar, como se não tivesse voz própria, uma voz que qualquer animista poderá garantir que fala continuamente e bem alto. Uma lógica que necessita de manter uma elite para subsistir e divide direitos por ordem de importância económica ou mediática. Deixarmo-nos arder pela Poesia Indómita, que conhece apenas as suas próprias regras, leva-nos a considerar a terceira opção, a menos evidente e a mais radical, na raiz da Canção da Vida: deixar que a experiência infiltrada, o Ser, nos faça sábios, e assim situar o fim de toda a opressão no centro das preocupações ecológicas mais urgentes, “pelo amor de todas as existências”. Ou não fosse integral e inerentemente bárdica a crítica ao culto da civilização.

Conta uma lenda associada à montanha de Cadair Idris, no País de Gales, que todos aqueles que pernoitam no seu sopé, encantados pela perspectiva de se tornarem poetas de renome, devem esperar um de três destinos: acordarem irremediavelmente enlouquecidos, serem visitados pela morte ou despertarem com o muito desejado Fogo na Cabeça. Numa comunidade onde demasiadas vezes se propaga o mesmo veneno que vem sendo derramado sobre a Terra e sobre os nossos corpos desde há séculos, oprimindo e calando, como qualquer outro Poder mundano, os seres que a Soberania tem por predilectos, faço votos de que as montanhas de que nos rodeamos não reforcem em nós os nossos apegos mais conservadores, mas nos devolvam à verdade indomável dos sentidos, da carne viva no Caldeirão do Movimento, e assim acendam nas nossas palavras-actos criadores o Fogo da Poesia, do Dán que continuamente refunda todas as coisas.

Artigo originalmente publicado no número 6 da Revista Ophiusa da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas, em Maio de 2018.